
Sempre os trapos! Sempre os trapos!
Pois, eram mesmo. Sem dó nem piedade! Tiravam-me a atenção!
Piano, piano! Não é assim! Que disse eu no outro dia?
Pois disse, mas eu já me esqueci… Estaria a pensar noutra coisa…
Sempre os trapos!
Seria… talvez não. Mas não prestei atenção. De certeza.
A sonata já me cansa. Gosto, mas cansa.
Voltámos ao início! Não te esqueças do Crescendo!
Pois. Não me esqueço. Já, pelo menos.
Daqui a pouco, talvez. Esta parte fascina-me. Pena não serem todas assim.
O trilo! O trilo!
Ai, o trilo! Nunca o faço bem. É tão difícil. Fico com os dedos presos.
Podemos parar? Só um bocado? Esta sonata é bonita, é poderosa, mas com tanta insistência, cansa-me.
Assim não!! Ainda quero ver a peça contemporânea!
Ui! Essa então… por mim está pronta. Mas a acompanhante deixa-me furiosa. Não sente isto como eu. Porque serei a única com a mania dos contemporâneos? Eu gosto! Não são certinhos!
Outra vez!!! Onde está essa entrada? És tu que começas… não te podes atrasar!
Pois não. Não posso! E não vou! Ou está tudo estragado!
Gosto destas variações e atonias! Sabem a liberdade…
1, 2, 3… não te atrases!..
Não. Está tudo certo! Certíssimo! Mas na hora, já sei…
Vou-me enganar!
Toc!..Toc!..Toc!..
Esta vareta nas teclas enerva-me, mas controla-me… Tem que ser!
Outra vez esse dedo por baixo? Onde estás tu?
Outra vez nos trapos!...
Se calhar… nos trapos da minha cabeça!...
Parte final. Mais atonias! Adoro os finales! Ficam no ar…
Já não se ouvem, mas sentem-se…
Pronto! Vê lá se estudas mais para a próxima!...
Sim. Eu penso sempre que sim. Mas não estudo nada.
Talvez o contemporâneo. Ajuda-me a descarregar. Pobre piano!
E vê lá…não penses só nos trapos!
Vou tentar…
Prometo que vou tentar!...
Em homenagem à D. Hélia Soveral, pela paciência e vã esperança em fazer de mim uma pianista.
22/02/08